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S. João do Porto em 2020

Sou do Porto, aqui nasci.
Foi esta cidade que me viu crescer, aprender, trabalhar.
Aqui nasceram os meus filhos e aqui vivo, com uma imensa paixão por esta cidade. Arrisco-me mesmo a dizer que será já amor eterno 🙂
E no Porto, no meu Porto, sempre houve S. João e a sua noite.

Ainda dias antes as ruas enchem-se de cor.
A cor dos manjericos, dos aventais das senhoras a vender o alho porro, dos carrinhos de choque na rotunda, das “barracas” das farturas.
E nessa noite, na noite de S. João, a cidade ganha vida!
São as gentes bem dispostas, crianças e velhos a rir entre “marteladas”, é o cheiro das sardinhas e a broa a pingar, são as toalhas aos quadrados nos arraiais, é a música por toda a cidade, e são os balões, coloridos, que sobem no ar carregados de esperança e pedidos de “fertilidade e abundância” lembrando ainda o longínquo inicio desta festa ( que começou por se pagã), antes de o Meu Querido S. João a assumir como sua.

Era pequena, mas lembro-me tão bem.
Que expectativa ao ver montar os carrinhos de choque na rotunda … “só mais uma volta”!
E dias antes era também já possivel “ir às farturas”. Faziam-se a contagem da gente para saber “quantas dúzias” e lá estava aquele cheirinho de fritos com canela, acompanhado de frisumo (ao longo doa anos foi evoluindo para uma coca-cola e hoje não resisto a um fininho bem gelado).
Saíamos em família para a noite de S. João, após a meia noite vínhamos a casa deixar os “mais dorminhocos e mais cansados” e voltávamos, eu, o meu pai , o meu avô e mais uns quantos foliões, para a coração do Porto, para viver aquela noite em pleno, até ao fim!

Fui crescendo e a folia continuou. Em noite de S. João!
Ainda jovem, a noite terminava da melhor maneira. À espera do nascer do sol na praia, antes de apanhar o autocarro 88 para regressar a casa!

Fui ficando mais velha e a noite de S. João mais curta.
Mas na noite de S. João tem que haver alegria, muita gente, concerto nos Aliados e um martelo ou um alho porro na mão!
Tenho que ir ver o S. João às Fontainhas, comer uma fartura (daquelas com cheirinho a óleo e muita canela) e ver o fogo na Ribeira.
Há que subir os Guindais (não, não é o funicular, mas a Escada) e parar a meio, no arraial do Guindalense, ouvir a música, repor as energias e apreciar uma das mais bonitas vistas desta cidade lindíssima.
Adoro esta noite. Uma noite em que as gentes do Porto estão todas juntas, sem diferenças de idade, classes … onde todos estão alegres. A única noite do ano, em que é possivel martelarmos a cabeça de estranhos e esfregarmos alhos porros no nariz de gente que nunca vimos, e de volta recebermos um sorriso, às vezes uma gargalhada e os votos de “Bom S. João”!
É assim o “meu” S. João!
Sempre foi assim!
Excepto este ano de 2020 … 🙁